A linguagem do dinheiro
Glória Maria Garcia Pereira
O dinheiro tem uma linguagem muito clara – um idioma mesmo. Conhecendo sua estrutura, é possível aperfeiçoar a fluência e até ensinar, como acontece com o ensino-aprendizagem de português, inglês, espanhol ou qualquer outro idioma.
A forma como uma pessoa lida com o dinheiro está expressa no corpo: se é preocupada e ansiosa, se é desligada do assunto dinheiro, se é compradora compulsiva e assim por diante.
A estrutura básica da linguagem do dinheiro está apoiada em cinco verbos de ação:
Fazer dinheiro: colocar-se no mundo “to make money”.
Negociar: vender e comprar.
Lucrar: gerar lucros em alta velocidade.
Sonhar: aplicar para realizar a felicidade futura.
Investir: arriscar sempre sem perder o patrimônio.
O dólar americano é a única moeda que circula livremente sem qualquer dificuldade por todo o planeta. Essa mesma moeda serve de padrão ou referência monetária tanto para transações comerciais ou financeiras quanto para medida de riqueza. Por que será que não é a libra esterlina, nem o franco suíço, nem o marco alemão, nem o iene japonês e muito menos o recente euro?

Vou demonstrar, através de um hábito bem brasileiro, com um exemplo típico, o quanto dinheiro é cultural e está no inconsciente coletivo e pessoal.
Em palestras para diferentes públicos, costumo perguntar quem está, naquele momento, com alguma nota ou cédula de dólar (de qualquer valor) no bolso ou carteira. Nas grandes metrópoles brasileiras o índice chega a 40% dos presentes com uma cédula de US$1.
Aí pergunto: “Por que vocês estão com o dólar na carteira?” E a resposta em quase 100% dos casos é: “Para dar sorte!” Ou seja, uma atitude Yin, de ganhar mais dinheiro, sem ter de fazer nada. Apenas guardá-lo, olhar para ele e torcer para se multiplicar. A magia brasileira, o esperar a sorte chegar. Aí está a sensação de sempre “estar duro” e que pode faltar dinheiro. Claro, nunca sabe quando a sorte vai bater à porta.
O americano típico é educado desde a infância a guardar uma cédula de US$1, 10 ou 50, que é a sua moeda local, em um lugar especial da carteira (ou outro bolso), para nunca se “sentir” sem dinheiro. E aquele um dólar é um sinal de que chegou na reserva. Precisa colocar mais dinheiro na carteira.
Muito semelhante ao marcador de combustível do veículo quando acende o indicador que chegou na reserva. Esse dinheiro é um indicador ativo – “você precisa fazer mais dinheiro”. E, dessa forma, não passa pelo seu sentimento, nem pela sua cabeça, o “estou duro” ou sem dinheiro. O dólar estimula o americano à atividade, à energia Yang, “to make money”.
Lilian Prist, estudiosa de formas de aprendizagem e professora de inglês, mostrou-me esta importantíssima diferença semântica e cultural: na língua inglesa existe uma expressão “to make money”, que significa ganhar dinheiro, mas traduzida literalmente quer dizer fazer dinheiro.
No Brasil, nós perguntamos: Quanto você ganha?; os americanos perguntam: Quanto dinheiro você faz? Percebe a diferença? Eu ganho tantos reais por mês. Eu faço tantos dólares por mês.
Certamente a diferença entre as moedas dólar e real é clara e concreta. Sem dúvida, a mais rica nação do planeta utiliza uma moeda muito mais forte do que a nossa.
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