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                Consciente do erro, Norberto ajuda a recuperar dependentes

Longe do álcool e do crack há mais de um ano, motoboy faz parte de grupo que dá apoio a viciados
Norberto já foi coroinha, dono de bar e traficante. Hoje, abstêmio há mais de um ano, trabalha como motoboy e participa de um grupo que se dedica à recuperação de dependentes. “Muitas das pessoas que ajudei a se tornarem dependentes agora estão mortas”, diz. “Por isso, quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance para auxiliar outras a abandonarem o vício.”

 

Aos 31 anos, o motoboy exibe no rosto várias cicatrizes, resultantes dos acidentes que provocou quando dirigia sob o efeito das drogas. “Minha vida já foi um inferno, mas aos poucos tudo está se acertando”, comenta. “Claro que ainda tenho dificuldades, mas hoje eu as encaro de outra forma.”

 

Seus problemas tiveram início, revela, ainda na adolescência. Para vencer a timidez, ele se excedia na bebida. Aos 18 anos, começou a fumar maconha. “Achava o máximo meus amigos que fumavam e ficavam alegres, rindo à toa”, afirma. “Quis experimentar para também me sentir mais feliz.”

 

Pouco tempo depois, passou a consumir cocaína. “A certa altura, cheirava 5 gramas por noite”, confessa. Para poder comprar a droga, Norberto passou também a vendê-la. “Comprava 10 gramas e vendia metade pelo dobro do preço”, diz. Sempre com a concordância dos traficantes. “Seguia à risca o código de honra e era respeitado por todos.”

 

Norberto casou-se aos 21 anos, mas o compromisso durou pouco: “Não me conformava com o fato de minha mulher não querer filhos.” A relação com os pais, ambos de sólida formação católica, também se deteriorou depois que começou a recorrer às drogas. “Eles nunca me perguntaram nada e sempre desconheceram o assunto”, afirma. “Meu pai somente soube do fato há poucos anos, quando me viu em uma reunião confessando ser dependente.”

 

Até os 26 anos, Norberto garante que conseguia conviver relativamente bem com a sua dependência. “Minha vida pessoal estava destroçada, mas ainda assim eu conseguia trabalhar e produzir e tinha o respeito dos traficantes e dos meus compradores.” Os problemas pioraram depois de o motoboy começar a usar crack. “Tinha uma lanchonete, um carro e uma moto”, afirma. “Em pouco tempo, perdi tudo.”

 

A mudança para o crack trouxe outro problema: Norberto afirma que não conseguiu mais sustentar o vício: “Briguei com o traficante e não podia mais manter o esquema de vendas.” Mesmo assim, usava 11 pedras de crack por noite. “Eram mais de R$ 100,00 por dia”, explica. “Além disso, não conseguia mais trabalhar: fechava a porta e ficava pipando (fumando crack).”

 

Quando perdeu tudo, Norberto fez uma viagem à Bahia, retornou a São Paulo e foi morar na casa dos pais. “Eram brigas diárias”, diz. “Não conseguia arrumar emprego e ainda assim continuava usando drogas.” Um dos poucos momentos de afeto que Norberto lembra dessa época aconteceu em 1994, logo depois de ele sofrer um acidente. “Eu estava alcoolizado e drogado e derrubei dois postes”, afirma. “Até hoje guardo a lembrança do meu pai me olhando comovido na maca”, diz. “Naquela época não consegui perceber que eles me amavam: naqueles poucos minutos, a sensação de carinho voltou.”

 

Mas tão logo saiu do hospital Norberto retomou o vício. Em 1996, ainda morando com a família, o motoboy começou a namorar a dona de um bar. “Na verdade, queria beber de graça.” Poucos meses depois, a nova namorada engravidou.

 

Eles passaram a morar juntos e, em julho, o filho de Norberto nasceu. Trabalhando na época em uma oficina mecânica, Norberto fez jornada dupla durante dois dias. “Saí contentíssimo sábado à noite, com um bom dinheiro no bolso”, diz. Mas resolveu passar num bar antes de ir para casa. Só voltou três dias depois.

 

 
Despertar – Duas semanas mais tarde, o pai de Norberto pediu que ele o acompanhasse ao cemitério. “Ao chegar lá, em cima do túmulo de minha avó, meu pai começou a chorar como um menino”, conta. “Naquele momento, percebi quanto mal estava causando aos meus pais e lembrei de todo o meu passado, da minha infância e do meu filho.”

 

Norberto resolveu então procurar um grupo de ajuda. Os primeiros meses foram muito difíceis: “Acordava à noite, sentia o gosto de bebida, mas ia até o berço do meu filho e percebia quantos motivos eu tinha para me manter abstêmio.”

 

A mulher de Norberto vendeu o bar. Ele se tornou motoboy e todos os dias vai a reuniões do grupo. Sua maior apreensão, afirma, está no destino do filho. “Vou fazer de tudo para que ele não tenha um futuro parecido com meu passado.” (L.F.)

 

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