Morre Gianni Agnelli
TURIM (CNN) -- A família Agnelli, proprietária da Fiat, anunciou nesta
sexta-feira a morte de seu patriarca, Gianni, um dos mais poderosos e eficientes
empresários da Itália.
Agnelli, de 81 anos, estava com a saúde bastante debilitada desde o ano
passado, quando viajou aos Estados Unidos para se submeter a um tratamento
contra câncer de próstata.
Presidente honorário da Fiat, Agnelli deixou seu nome na história da Itália
ao transformar a empresa familiar em uma potência mundial.
"Giovanni Agnelli morreu em casa, em Turim, após meses de enfermidade",
informou a família, por meio de um curto comunicado.
"Sua esposa, Marelli, sua filha Margherita, e a família dela estavam
presentes", concluiu.
Justamente nesta sexta-feira, Gianni Agnelli deveria comandar uma reunião de
família para discutir o futuro da Fiat.
Abalada pela queda drástica nas vendas, a montadora foi obrigada recentemente
a adotar um plano de reestruturação que resultou na demissão de mais de oito mil
funcionários.
No mês passado, as ações da Fiat atingiram sua maior baixa em 20 anos. A
família Agnelli detém 30 por cento do controle acionário da companhia.
Com a morte de Gianni, como Giovanni era mundialmente conhecido, abre-se uma
disputa pela liderança do clã mais famoso da Itália.
O mais provável seria que Umberto, seu irmão de 69 anos, assumisse o comando.
Entretanto, Gianni não escondia a preferência pelo neto John Elkann, que tem
pouco mais de 20 anos.
Uma saída, segundo analistas, seria Umberto ocupar a presidência da Fiat,
tendo Elkann, seu sobrinho, como vice.
Após o anúncio da morte de Gianni Agnelli, as ações da Fiat subiram 4,8 por
cento na Itália. Economistas acreditam que a ausência do patriarca poderia
provocar uma mudança radical no grupo, inclusive com sua aquisição pela maior
montadora do mundo, a General Motors.
"Sua morte significa que temos agora uma situação completamente diferente",
comentou um analista ouvido pela agência Reuters. "Fica aberta a questão sobre o
que acontecerá à Fiat Auto, pois ele era visto como o homem que queria preservar
a companhia".
Agnelli: o industrial playboy
Por Alessio Vinci
TURIM, Itália (CNN) -- Giovanni Agnelli, que morreu aos 81 anos, nasceu rico
e foi preparado para assumir a indústria automobilística que seu avô fundou - o
que acabou fazendo no início dos anos 1960.
Sua dinastia cresceu tanto que, em determinado momento, Agnelli - mais
conhecido como Gianni - controlava, direta ou indiretamente, um quarto da bolsa
de valores da Itália, no valor de 25 bilhões de dólares.
"Agnelli era um homem da velha escola" disse seu biógrafo, Alan Friedman.
"Ele cresceu num ambiente em que os políticos e a Fiat podiam misturar seus
interesses. Ele cresceu num tipo de cenário em que o vencedor leva tudo".
Nos anos 1970 e 1980, a influência e o poder de Agnelli pareciam sem limites
e ele era a personificação do empresário italiano.
Durante anos, o empresário contou com o bem protegido mercado automobilístico
italiano. Acima de tudo, Agnelli - também conhecido como "l'avoccato", ou "o
advogado" - era sempre um homem pronto a modelar a política nacional nos
bastidores.
"O que era importante eram suas conversas particulares - você sabe, todo
mundo diz 'o advogado me contou, o advogado me sugeriu, encontrei o advogado,
recebi um telefonema de manhã cedo do advogado'... estar em contato com ele...
relacionar-se com ele... era um símbolo do estado para todo mundo", declarou à
CNN o jornalista Carlo Rossella.
Nos anos 1970 e 1980 Agnelli era também o símbolo da virilidade italiana: era
casado com uma princesa, mas seus casos de amor nunca foram mantidos em sigilo.
Seu estilo 'fashion' - usava um relógio sobre o punho das camisas e os botões
de baixo desabotoados - virou tendência e os paparazzi o seguiam da Riviera
Francesa aos resorts suíços de esqui.
Mas a Fiat demorou a se adaptar a um mercado que se tornou mais competitivo
com a gradual remoção das barreiras comerciais. A estrela de Agnelli já não
brilhava tanto.
"A história da vida de Gianni Agnelli é realmente uma parábola", disse
Friedman. "Ele subiu ns anos 1950 e 1960 como um playboy que virou industrial.
Ele atingiu o auge de seu poder controlando jornais, companhias de seguros e
fabricantes de carros. Ele caiu no fim dos anos 1980, quando a Itália não tinha
mais um mercado protecionista e os produtos da Fiat não tinham mais êxito".
Agnelli deixou o dia-a-dia da Fiat em 1996, após 36 anos, para se tornar
presidente honorário da empresa.
Havia um lado trágico em sua vida: seu único filho varão cometeu suicídio e
seu sobrinho, que seria seu sucessor, morreu por causa de um tumor no cérebro
aos 33 anos. Ele deixa a esposa, Marella, a filha Margherita e mais de 150
primos, sobrinhos e sobrinhas.
Agnelli: um homem do esporte
ROMA -- A morte de Gianni Agnelli, presidente honorário da Fiat, não deixará
um vazio apenas na história empresarial da Itália como também no mundo esportivo
do país.
A vida de Agnelli, que morreu nesta sexta-feira, aos 81 anos, sempre esteve
ligada a várias modalidades esportivas, entre as quais se destacam a escuderia
de Fórmula Um Ferrari e o clube de futebol Juventus, de Turim, suas duas grandes
paixões.
A ligação de Gianni com a Ferrari começou em 1950, quando estabeleceu seus
primeiros contatos com o comendador Enzo Ferrari, dono da equipe.
Quando efetivamente passou a se relacionar com a Ferrari, 19 anos depois, a
escuderia passou por diversas transformações e conquistou três títulos mundiais
de pilotos, com o austríaco Niki Lauda (1975 e 1977) e com o sul-africano Jody
Schekter (1979).
Depois da década de 70, a equipe enfrentou muitos problemas e só reencontrou
o caminho da vitória no ano 2000, com o alemão Michael Schumacher.
Durante o período de vacas magras, Agnelli fez algumas declarações que
tentavam explicar os sucessivos fracassos da Ferrari.
"Quando você tem um piloto como o Michael Schumacher e não vence, a culpa é
sua", afirmou o empresário, em 1995.
Schumacher, por sua vez, em declarações publicadas no site da Ferrari, disse
que se sentia orgulhoso por ter conhecido Agnelli.
"Estou profundamente chateado com sua morte; sempre tive um profundo respeito
por ele e me sinto orgulhoso por tê-lo conhecido", disse o pentacampeão da F1.
"Cada vez que nos encontrávamos, ele me lembrava de seu grande interesse pela
Ferrari, pela F1 e pelo futebol, além de ser um homem sensível aos problemas do
mundo".
Já o presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, declarou, através de um
comunicado, que a morte de Agnelli deixou um vazio em sua vida.
"Por mais de 35 anos, sua amizade e afeto foram um ponto de referência
incomparável para mim", disse. "Nunca esquecerei quando esteve perto de mim nos
momentos difíceis e atribuo o sucesso da Ferrari a ele".
Cidadão de Turim
A Juventus foi outro grande amor desse cidadão de Turim, que viu alguns dos
principais jogadores da segunda metade do século XX vestindo o uniforme do
clube.
Entre os atletas que atuaram pelo clube destacam-se os franceses Michel
Platini e Zinedine Zidane; o polonês Zbigniew Boniek, e os italianos Roberto
Baggio, Antonio Cabrini, Dino Zoff, Paolo Rossi e Alessandro Del Piero.
"Conhecê-lo foi uma grande honra", disse o goleiro Zoff. "Ele sempre estava
perto do time".
"Perdemos um grande homem", comentou Platini, enquanto o presidente da
Federação Italiana de Futebol declarava: "o futebol está de luto".
Uma vez, quando perguntaram a Agnelli se preferia a vitória da Juventus ou a
do melhor time, o presidente de honra da Fiat respondeu com orgulho:
"Tenho sorte que, quase sempre, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo".
Agnelli viu a Juventus conquistar 26 campeonatos nacionais e duas Copas dos
Campeões da Europa, em 1985 e em 1996.
Por sua vez, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques
Rogge, prestou uma homenagem a Agnelli, que era membro de honra da entidade
desde 2000 e que definiu como um "fervoroso entusiasta do esporte".
"Por sua experiência e seu carisma, Agnelli contribuiu de forma importante
para que o movimento olímpico entrasse em uma nova era", afirmou Rogge.