O esquema Marinho
O
império de Roberto Marinho, mastodonte que cabe muito bem numa comparação com
o legendário Titanic, está fazendo água. Não é pouca água. A dívida da
corporação é de 2,6 bilhões de dólares. Ao câmbio do dia, são quase 10
bilhões de reais, o equivalente a 20% do orçamento anual de São Paulo, Estado
que concentra um terço do PIB brasileiro. Cada centavo de flutuação para cima
da moeda americana em relação ao real eleva o débito em 26 milhões de dólares
(ou quase R$ 90 milhões).
O
pior é que o rombo não pára de aumentar. Em 2001, o império global deu prejuízo
equivalente a 568 milhões de dólares (ou 2 bilhões de reais). Previa-se uma
tamponagem de emergência com um financiamento de um bilhão de reais do BNDES,
destinado ao negócio mais desastroso que os Marinho já fizeram, numa sucessão
de negócios mal sucedidos nos últimos tempos: a TV a cabo. Houve uma grita na
opinião pública, provocada nos bastidores por outras empresas jornalísticas
concorrentes. O banco só conseguiu liberar até agora 30 milhões de reais.
Tecnicamente a Globo está falida. A dívida é duas vezes e meia maior do que o
patrimônio líquido da empresa. A rigor, o único ramo lucrativo do grupo é a
televisão comercial. Ela podia continuar a caminhar com folga, mas vai precisar
drenar recursos para adubar terrenos áridos ou maltratados. Por isso, houve
corte de despesas na Vênus Platinada. As três emissoras da empresa no interior
de São Paulo, o segundo maior mercado publicitário depois da própria capital,
tiveram que ser vendidas para fazer caixa. Na emergência, o mais ativo dos
filhos, Roberto Irineu Marinho, quebrou a isonomia na tríade da sucessão do
patriarca para assumir o comando geral, embora com certa informalidade, a partir
da TV Globo, para não precipitar uma cisão interna (se tal ainda é possível).
Os esquemas administrativos e de gestão deram algum resultado. Não são
suficientes, no entanto, para reverter a tendência de débâcle, que se
delineia exatamente quando o companheiro Roberto Marinho já vê no horizonte a
data do seu centenário de vida – de raro esplendor, aliás. Ruim das pernas
no plano econômico, a Globo está voltando a recorrer a uma saída política
sagaz, utilizando seu naco de poder, ainda enorme.
O ex-tucano Henri Philippe Reichstul, albergado na Globopar depois de deixar a
Petrobras, e catapultado da ex-quase-futura holding pela falta de receptividade
de investidores ao negócio, teria a missão de se aproximar do futuro ou provável
governo Lula. Ele seria a ponte entre o PT de resultados e o clã Marinho,
costurando futuras alianças. Isso, depois de ter atuado para conseguir que o
governo colocasse em vigor de imediato a abertura da imprensa brasileira ao
capital estrangeiro (até o limite de 30% do controle acionário). Com a aprovação
da lei no Congresso, a medida estava aguardando regulamentação através de
decreto-lei. O governo se antecipou através de Medida Provisória, um
instrumento de exceção transformado em édito do trono na corte de FHC. Além
da Globo, o outro grupo beneficiado é a Editora Abril.
O esquema, naturalmente, é desmentido. Mas nele pode estar a inspiração para
a cobertura responsável e arejada que a rede Globo deu à eleição deste ano,
contrastando, particularmente em relação ao companheiro Lula, com as tramóias
de 1989, que ajudaram a eleger Fernando Collor de Mello.
É por essas e outras que o mundo gira e a Lusitana roda. Os Marinho na direção.
(*) Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)
by Lúcio Flávio
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