Deborah Moratori
Desde que foi eliminado da terceira edição do Big Brother Brasil da
Rede Globo, o massoterapeuta Jean Massumi chama atenção por onde passa.
Autógrafos, abraços e fotos... Com certeza, a fama de "vilão" acabou junto com o
programa.
De passagem por Juiz de Fora, onde morou por oito anos, Jean esteve na
redação do JF Service para conceder uma entrevista exclusiva para
a nossa equipe. Falou de suas experiências, da estratégia que usou no Big
Brother, do convite para posar nu, da amizade com o Harry... e mais: revelou que
foi aluno do Colégio Jesuítas e estudante da UFJF, durante um ano, no
curso de Farmácia e Bioquímica. Largou os estudos para abraçar a profissão do
pai e ser massoterapeuta. Ele mal sabia que faria tanto sucesso!
Leia a entrevista e confira o que esse virginiano de fala mansa e sorriso
cativante revelou para os seus fãs.
JF Service - Você diz ter um
temperamento explosivo herdado do sangue quente italiano da mãe e quando entrou
na casa falou que o seu principal objetivo era não enlouquecer. Durante o jogo
você manteve uma postura de observador consciente, não explodiu e nem
enlouqueceu. Foi fácil viver confinado numa casa desconhecida com 13 pessoas
estranhas que estavam todas disputando um único prêmio?
Jean Massumi - Não foi fácil. O que
acontece é que antes de ir pra casa, a gente fica confinado uma semana no hotel.
Essa primeira semana, esse baque inicial pra mim contou bastante. Foi quando eu
revi muitas questões da minha personalidade e uma das coisas que eu coloquei na
cabeça é que jamais eu poderia ter um problema de relacionamento dentro da casa.
Uma situação inóspita, hostil, em que você está longe da família, longe dos
amigos, já é favorável a desentendimentos a uma queda na sua felicidade, na sua
condição de paz espiritual. E se eu acrescentasse a isso um problema de
relacionamento a situação de convivência poderia virar uma bomba relógio. Então
eu pensei: "pelo menos eu tenho que me relacionar bem com as pessoas".
JF Service - Você nasceu em Itapetininga,
já morou em várias cidades, na Itália, e passou dois meses e meio no Big Brother
Brasil 3. O que esses dois meses e meio têm de diferente das experiências
anteriores?
Jean Massumi - Nasci em Itapetininga,
morei em Indaiatuba, morei em Passos, cidade em que o Dhomini nasceu,
provavelmente a gente já se cruzou quando era criança. Ele estudou no mesmo
colégio em que eu estudava, por três dias só mas estudou, eu lembro do pai dele
que tinha uma máquina de sorvete italiano... Depois eu fui pra Porto Alegre,
Juiz de Fora, São Paulo, Milão, voltei pra São Paulo... São muito diferentes a
casa do Big Brother e os lugares em que morei. Embora o espírito do programa
seja de competição, a gente tira muita coisa positiva de lá. Dos lugares em que
eu morei eu também tiro muita coisa positiva. Na casa, parece que a situação é
artificial, não que os relacionamentos não tenham sido reais, mas você olha lá
pra dentro parece que você está num estúdio de televisão, parece uma realidade
paralela em que você está vivendo por uns dias. Você congela sua vida ali e
depois sai famoso. E esses lugares em que eu morei me ajudaram muito lá dentro
da casa em termos de diversidade cultural. Porque lá a gente está convivendo com
um monte de pessoas diferentes e se você não tem um ponto de vista aberto pra
interpretar aquela diferença, você se choca, se você tem preconceitos, você vai
se chocar, e morar fora te ajuda a quebrar esses preconceitos, amplia o seu
campo de visão.
JF Service - Antes de entrar na casa,
você chegou a afirmar que não era só a estratégia que contava, mas o que você
tinha para passar para o público era mais importante. No entanto, sua postura
dentro da casa foi bastante discreta. Você acha que deu mais prioridade às
estratégias e deixou de se mostrar para o público?
Jean Massumi - Eu tive uma dificuldade
muito grande de mostrar o meu lado pessoal. Depois que a gente entra na casa, a
nossa cabeça muda muito. A estratégia lá dentro é feita a cada semana. Se você
tem o seu lado pessoal enfraquecido, demonstrar tristeza, que você está pra
baixo, as pessoas podem até usar isso contra você. Então eu procurei manter uma
paz de espírito total para não interferir na minha forma de jogar. E quando eu
comecei a jogar, a única coisa que me atrapalhou foram as relações pessoais, as
afinidades, porque você vai poupando as pessoas com quem você tem maior
afinidade, porque elas são fundamentais naquela situação. Imagina você estar lá
e os seus amigos vão saindo e não sobra ninguém pra você conviver. Aí fica mais
difícil. Então as afinidades me atrapalharam um pouco a jogar. Depois eu deixei
claro que eu estava jogando mesmo.
JF Service - Você acha que de alguma
forma, a maneira com que a Globo conduziu o programa e a própria edição de Big
Brother Brasil 3 atrapalhou a sua estratégia a partir do momento que deixaram
bem claro para o público que você estava jogando e ao montar uma espécie de
historinha do bem (Dhomini) contra o mal (Jean)? O próprio Bial, ao vivo, citou
"A arte da guerra", seu livro preferido, como manual de instrução e guia de
conduta dentro da casa...
Jean Massumi - Pelo contrário. Algumas
pessoas até vem falar, eu ainda não vi todas as fitas, falaram que tinha
historinha que eu era o diabinho e tinha o Emílio como raposinha, o Harry...
Isso aí está dentro do contexto do jogo, das nossas armações, mas eu não acho
que isso tenha me prejudicado. A questão da popularidade é você saber jogar para
fora e infelizmente eu tive uma dificuldade muito grande de fazer isso, jogar
para o público. Eu preferi jogar lá dentro. O Dhomini, não. Ele jogou pra fora,
para o público. Lá dentro ele quase não jogou, pelo menos não com uma estratégia
bem específica e aí ele colheu os frutos e eu não, mas eu não me arrependo de
ter feito isso e também não acho que a edição da Globo tenha sido decisiva, mas
a minha dificuldade de jogar com a opinião pública, sim.
JF Service - Esse foi o seu maior erro, o
motivo principal pelo qual você não ganhou?
Jean Massumi - Na verdade não foi um
erro, porque não é uma questão de você poder escolher entre errar e acertar. É
uma questão de você poder demonstrar e não poder demonstrar. E a minha
personalidade não permite que eu seja um showman. Não acho que tenha sido um
erro. Pode ter sido uma insuficiência tática, técnica, sei lá, se fosse igual a
jogo de futebol. Não que tenha sido um erro.
JF Service - Como você analisa a postura
do vencedor do programa?
Jean Massumi - Esse prêmio foi dado pra
quem merecia. O Dhomini foi o cara que jogou pra ganhar mesmo. As pessoas falam
que a Elane merecia mais. Aí eu pergunto (quem que merece 500 mil reais? Quem é
que precisa de 500 mil pra viver?) Se todo mundo precisasse de 500 mil reais...
Aquilo ali não é um prêmio filantrópico. A essência do jogo é você entrar lá,
jogar, demonstrar a sua opinião, a sua personalidade e conquistar a opinião
pública. Alguns usam as dificuldades como um artifício pra tentar comover, eu
acho que isso não é uma boa, por isso eu apreciei muito o jogo do Dhomini. Ele
não partiu pra esse lado e ele também é uma pessoa que precisa do dinheiro, mas
jamais ele demonstrou isso. Ele foi por um outro caminho, o caminho do jogo
mesmo, de jogar com o público. Eu admiro muito isso nele.
JF Service - Você quase chegou lá, valeu
à pena ficar esse tempo todo na casa sem ter saído com os R$ 500 mil?
Jean Massumi - Sem sombra de dúvida valeu
à pena. Ficar famoso é estranho, você entra na casa, já no hotel, parece que
você passa pra outra dimensão, você vive uma realidade paralela. Então quando
você sai da casa, você está famoso e você não fez nada por aquilo. Você não fez
curso de ator, não virou um cantor de rock mundial que faz turnê por aí e, mesmo
assim, você sai famoso. E você estava vivendo em uma casa como se você estivesse
na sua, dentro daquelas condições adversas, é claro, e no dia que você sai, você
está famoso por causa disso. É estranho. "O que eu fiz pra merecer isso?" Eu
estava lá jogando, de bobeira... Mas é gostoso e fora isso tem o lado do
reconhecimento, aparecem algumas oportunidades de trabalho, então pra mim eu não
tenho do que me arrepender de nada...
JF Service - E daqui pra frente? As
propostas novas surgiram? Quais são seus planos? Vai casar, vai posar pra alguma
revista feminina?
Jean Massumi- Eu falei que casaria se eu
ganhasse, isso está lá gravado... Inicialmente eu vou me concentrar na minha
profissão. Já pintaram algumas ofertas, mas se aparecerem propostas diferentes,
de aparecer numa festa, se não for atrapalhar a minha profissão eu vou com o
maior prazer. Estão surgindo uns convites, eu nunca tinha pensado nisso, mas eu
topo sem dúvida. Só não vou deixar a massoterapia de lado pra depois não ter
aquela sensação de tempo perdido. A minha namorada está cuidando do meu telefone
lá em São Paulo. Ela me ligou ontem dizendo que recebi uma proposta pra posar
para uma revista, mas ela já dispensou de cara. Depois essa mesma pessoa ligou
de novo, dizendo que era meu amigo, ele está entrando em contato, mas é lógico
que eu não vou aceitar, se eles quiserem me pagar um milhão e meio aí eu posso
pensar...
JF Service - Você sempre foi colocado
como o estrategista, o jogador e você mesmo fez questão de deixar isso claro.
Isso não atrapalhou um pouco o seu relacionamento com os outros participantes do
programa?
Jean Massumi - As pessoas perceberam que
eu estava jogando e eu deixei isso bem claro. Não existia nenhuma rusga, nenhuma
questão pessoal, tudo era em função do jogo, um jogo premia uma pessoa só.
Então, por mais que eu fosse seu amigo, dentro da casa chega uma hora em que
você vai me mandar pro paredão pra você não ir ou eu vou te mandar pro paredão
pra eu não ir. Isso faz parte do jogo, é inevitável. E as pessoas lá dentro
perceberam isso. Inclusive, a pessoa que mais tinha motivos pra ficar com algum
tipo de ressentimento em relação a mim era o Dhomini e a gente já conversou
depois da casa, agora a gente tem uma amizade legal. Ele é uma pessoa muito boa,
uma pessoa super amável, a gente se encontra direto. Não ficou nenhum tipo de
ressentimento com ninguém. A gente está fora da casa e agora é só pensar em
amizade. Lá dentro não dava pela questão do jogo.
JF Service - Ficou alguma mágoa, algum
ressentimento em relação a algum dos participantes?
Jean Massumi - Não ficou mágoa de ninguém.
Essa foi a vantagem de adotar a postura que eu adotei. Se você fala que é meu
amigo, você está lá na casa comigo, e eu coloco você no paredão, se você
interpretar só por esse lado, sem perceber que tudo não passa de um jogo, vai
ficar um clima ruim. "Pô, o cara é meu amigo e me mandou pro paredão". Por isso
eu deixei bem claro desde o começo "Eu estou jogando mesmo e amizade começa
depois que acabar o programa". Lá dentro era impossível porque havia um prêmio
em jogo e um prêmio individual. Pra mim não ficou mágoa de ninguém, eu tive um
belíssimo relacionamento com todos depois que saímos da casa. O próprio Dhomini
ainda dentro da casa falou que não tinha nenhum ressentimento e foi sincero.
Quando a gente se encontrou pela primeira vez depois que a gente saiu da casa, a
gente se abraçou, a gente pediu desculpas um para o outro, foi até meio
comovente e ali não tinha câmera, não tinha nada, ninguém estava atuando. Ele
estava demonstrando o que ele estava sentindo mesmo o que mostra que eu também
consegui passar que eu estava jogando e que não era nada pessoal.
JF Service - Com qual participante você
mais se identificou? Parece que dentro da casa surgiu uma amizade entre você o
Harry...
Jean Massumi - Sem dúvida eu me
identifiquei bastante com o Harry e se bobear ele aparece por aqui. Ele mora em
Teresópolis e ele me falou "quando você for pra Juiz de Fora, você me dá um
toque". Quem sabe ele não aparece por aqui por esses dias? A fama de Juiz de
Fora já está conhecida no Brasil inteiro. Em relação às amizades, tem também o
Álan, o Emílio e a Juliana. A única que ficou meio receosa foi a Elane. Depois
que ela saiu da casa, ela ficou um pouco distante. Eu até cheguei a conversar
com a família dela pra explicar que eu estava jogando e eles não poderiam
interpretar a minhas atitudes como traição. Eu a considero demais, acho que ela
precisa muito desse dinheiro, mas não é por isso que eu vou admirar a postura
dela no jogo.
JF Service - Qual foi a experiência que
mais marcou dentro da casa?
Jean Massumi - O carnaval foi uma das
experiências que mais me marcaram. Foi uma experiência que eu não vou esquecer
jamais. Vou contar essa história para os meus netos e bisnetos se eu viver até
lá. Eu e a Vivi saímos da casa, entramos em um carro fechado, nós não víamos
nada que estava do lado de fora, não podíamos conversar com o cinegrafista e
então a gente chega lá. E a gente estava na casa há um mês e meio, sem ver
ninguém e, de repente a gente vê uma multidão... Aí a gente foi pro camarote, eu
vi umas pessoas acenando e pensei "Será que é pra mim?". Aí eu acenei e as
pessoas me respondiam. Eu mostrei pra Vivi e falei "Faz pra você ver, é verdade"
e aí a galera toda dando tchau. E quando a gente foi pro carro, não dá nem pra
contar. Quando você entra na avenida as pessoas começam a tirar foto e foi tão
rápido e eu com medo de demorar muito e quando acabou eu pensei "Já acabou?".
Foi uma coisa inenarrável...
JF Service - O que mudou na sua vida
depois de ter vivido a experiência de um BBB3? Dá pra andar na rua tranqüilo?
Jean Massumi - Mudou tudo. "O que era minha
vida?". Minha vida era: eu saía de casa, ia trabalhar, de casa pro trabalho, do
trabalho às vezes ia jantar fora. Essa era a minha vida que até agora não
consegui recuperar. Não consegui trabalhar, não consegui ir pra São Paulo, desde
que eu saí da casa, eu estou no Rio e eu vim pra cá porque a minha mãe me
seqüestrou. E eu saí da casa onde eu estava lá jogando e agora eu fiquei famoso.
Ontem eu estava andando pelo Calçadão, as pessoas olhavam assustadas, ninguém
chegava perto, achei até que a minha popularidade estava em baixa. Até que parou
uma menina e aí, de repente, juntou uma multidão e eu fiquei mais de meia hora
dando autógrafo. As pessoas vem falar comigo como se eu fosse amigo íntimo, é
engraçado. Nesse jogo nós não somos atores, alguns atuaram lá, mas não são
profissionais, a gente vive lá a vida comum que todo mundo vive e as pessoas têm
acesso a isso e escutam a gente falando dos nossos problemas, aflições,
decepções, alegrias e têm a impressão de nos conhecerem há muito tempo. E vêm
falar comigo, na maior intimidade, aí a gente conversa... Os participantes do
Big Brother, pelo fato de não terem uma aura de celebridade que um ator tem, são
pessoas comuns, reais, vivendo a vida delas como todo mundo. Então as pessoas se
identificam, "Pô, esse cara é igual a mim". O assédio é até maior por causa
disso.
JF Service - O que você tirou de mais
positivo da vivência do Big Brother Brasil?
Jean Massumi - Todos os problemas entre
as pessoas se devem à falta de comunicação e a uma má interpretação. Se você
consegue superar isso, se você consegue enxergar o outro lado da moeda, se você
se colocar no lugar do outro sempre, eu acredito que 98% dos problemas entre as
pessoas conseguem ser resolvidos. Isso foi muito importante pra mim. A gente
sabe disso, mas nunca coloca em prática e lá você tem que colocar em prática até
por uma questão do próprio jogo.