O
fabricante de roupas Benetton anunciou que vai colocar etiquetas com um chip
Philips RFID (radiofrequency ID) em suas peças de vestuário,
substituindo o bom e velho código de barras. A finalidade, diz a empresa, é
simplesmente controlar o estoque. A experiência terá início com a marca Sisley.
Estima-se que 15 milhões de chips serão aplicados às etiquetas durante o ano de
2003, permitindo que cada roupa seja monitorada desde a produção até o frete,
armazenamento, prateleira e até a cabine de prova em cada uma das 5 mil lojas da
empresa. O chip I-CODE (vide informações técnicas) usado nas etiquetas da
Benetton incluirá 1.024 bits de EEPROM e será capaz de operar sem linha direta
de visada, a uma distância de 1,5 metro. A etiqueta não requer alimentação
elétrica interna. Sua interface passiva "contactless" (sem contato) gera
potência e obtém sinal de clock graças ao circuito ressonante, por acoplamento
indutivo com o aparelho de leitura.
As roupas Sisley, nas peças de uso feminino, são bastante
sumárias e às vezes reveladoras, o que nos faz imaginar se a privilegiada jovem
que envergar tal vestimenta sentirá algum desconforto com a tal etiqueta.
Isto sem mencionar o potencial de poluição eletromagnética produzido por
um chip transponder desses. Basta pensar num shortinho bem pequeno com a
etiqueta ativa irradiando a 13,56 MHz os ovários de uma jovem bela como esta que
o Cruz tão magistralmente retratou na ilustração
(*).
A filosofia por trás desta inovação é o conceito já bem
batido de EAS - Electronic Article Surveillance (fiscalização eletrônica de
artigos). Originalmente, a tecnologia EAS foi criada com o intuito de proteger
mercadorias contra roubo. A leitora certamente já a viu em funcionamento em
lojas de roupas ou de CDs. O sistema tem três componentes: etiquetas acopladas a
cada item, desativadores colocados no ponto de venda e detetores na fronteira da
zona de vigilância, geralmente na saída das lojas. As placas ou etiquetas EAS
tradicionais são retiradas da mercadoria no caixa, quando o cliente paga por
ela. Mas no caso dessa inovação da Benetton, não parece que seja esta a
intenção, o que vem causando bastante desconforto na comunidade ativista em prol
da privacidade digital.
A turma de hackers de plantão já se agita, uns discutindo
sobre como desativar a etiqueta, outros praguejando contra a vigilância
constante do "Grande Irmão", que poderia monitorar todos os movimentos de cada
usuário dessas roupas. Há até quem proponha um boicote contra a Benetton.
Outros, mais espertinhos, estão pesquisando como burlar o código interno da
etiqueta, fazendo com que, por exemplo, uma cueca Benetton apareça codificada
nos sensores como se fosse uma lata de ravioli ou outra mercadoria qualquer.
O sistema usado pela Benetton segue a norma ISO 15693,
proposta pela Texas Instruments e pela Philips Semiconductors em novembro de
1998, e foi desenvolvido pela empresa italiana LAB ID, sediada em Castel
Maggiore, Bolonha.