Veja e Fantástico
"pagam mico"
em matéria sobre chimpanzé quase humano
Enézio E. de Almeida Filho (*)
Os
chimpanzés fariam mesmo parte do gênero Homo? Isso foi sugerido pela pesquisa de
Morris Goodman e equipe publicada na revista Proceedings of National Academies
of Science, USA, e reforçado pelo artigo "Eles têm quase tudo em comum", do
editor especial João Gabriel Santana de Lima, na revista Veja 1.804, #21,
p. 73-74, de 28/5/03, que o resto da mídia desatentamente veiculou.
Especialmente o Fantástico, da TV Globo.
A questão hoje em dia não é se a teoria geral da evolução de Darwin contraria
os relatos religiosos da criação, mas se as evidências científicas apóiam ou não
as especulações darwinistas. As evidências continuam dizendo não a Darwin et
alii. E estão apontando em outra direção: design inteligente. Veja,
bem como toda a mídia, continua apresentando a evolução como uma guerra cultural
entre fé e razão.
Ao afirmar que na sua obra A origem das espécies Darwin mostrou "que
os homens e os demais primatas tinham ancestrais comuns", o editor especial de
Veja demonstrou desconhecer totalmente a proposição do livro – a origem
das espécies por meio da seleção natural ou a sobrevivência das raças
favorecidas na luta pela vida. Nem mesmo esta ousada proposição Darwin chega a
mostrar, ficando tão-somente nas hipóteses e em algumas analogias. É no seu
segundo livro, A origem do homem, que Darwin vai especular mais a
respeito dessa suposta ancestralidade comum, e que serviu de base para muito do
que nós hoje conhecemos como racismo.
A conclusão da pesquisa de Goodman et alii é simplesmente bombástica,
considerando-se que o atual consenso dos acadêmicos evolucionistas sobre esta
suposta semelhança de DNA entre chimpanzés e humanos tem sido entre 98,5% e 95%.
Por que então esta súbita semelhança na quase totalidade do DNA? O editor
especial da Veja, e a mídia em geral, não destacaram, mas a equipe
dirigida por Morris Goodman, da Escola de Medicina da Universidade Estadual
Wayne (Detroit, Michigan, EUA) somente "comparou 97 genes de humanos,
chimpanzés, gorilas, orangotangos, macacos do Velho Mundo e, numa base mais
limitada, de ratos".
Uma seqüência de 97 genes é muito pouco, em termos de dados genéticos, para
se chegar a esta radical conclusão. Eles não compararam todos os genomas dos
animais objeto de pesquisa. Os genomas dos primatas ainda nem estão totalmente
mapeados. O genoma humano, por exemplo, está todo mapeado, mas num sentido
generalizado. São mais ou menos 30 mil genes. QED: questão simples de matemática
que qualquer aluno do ensino fundamental seria capaz de calcular – Goodman et
alii encontraram somente 0,3% de semelhança, e não 99,4%, como foi alardeado
pela pesquisa e pela mídia. Esta tentativa de comparar DNAs na sua totalidade,
pelos atuais conhecimentos genômicos, está mais para chute do que ciência.
Sem dúvida que os chimpanzés são mais semelhantes com os seres humanos do que
os outros símios e macacos, por que isso não seria encontrado nos seus
respectivos genes? A semelhança anatômica em nada surpreende a semelhança de
genes, mas o mais importante a pesquisa não considerou e a mídia não ressaltou:
a origem das semelhanças a nível anatômico e genético.
Artigo ignorado
O
problema da reportagem de Veja e das demais notícias veiculadas na mídia
é que a porcentagem de 99,4%, além de enganadora, chama muito atenção. Os
leitores não-especialistas no assunto provavelmente concluirão que os chimpanzés
são "99,4% humanos"! O professor Steven Jones, evolucionista, afirmou que a
banana tem 50% de genes idênticos aos humanos, mas isto não faz das bananas 50%
humanas! Se bem que há muitos humanos "bananas".
Do muito que nós conhecemos a respeito dos genes, pouco conhecemos sobre
eles. Nem todos os genes são iguais. Por exemplo, alguns têm um controle
profundo no desenvolvimento. Outros genes idênticos em duas criaturas diferentes
têm funções diferentes. Contudo, estes limites rigorosos de "comparação
genética" parecem que não são levados em conta quando comparações simplistas
como esta são feitas. A se utilizar uma abordagem como esta, alguém poderia
chegar à conclusão de que, baseado nos 97 genes escolhidos, os seres humanos e
as bananas seriam da mesma espécie, vez que eles teriam quase que 100% de DNA
idêntico.
O mais irônico sobre a pesquisa de Goodman et alii é que na mesma
revista PNAS foi publicado recentemente um artigo destacando a diferença
de seqüências de mtDNA [DNA mitocondrial] entre o Homo neanderthalensis e
os seres humanos modernos (Caramelli et alli, "Evidence for a genetic
discontinuity between Neandertals and 24,000 year-old anatomically modern
Europeans", in PNAS 100(11)6593-6597).
O editor especial da Veja e toda a mídia pagaram mico: 99,4% de
semelhança de DNA é realmente quase 0,3%! Pano rápido!
(*) Pós-darwinista via Popper, Kuhn, Feyerabend e as evidências de design
inteligente detectadas na natureza