Motoboy:
profissão perigo
Categoria
teme ser estigmatizada por causa da morte do titã Marcelo Fromer
SÃO
PAULO -
Quarta-feira,
13 de junho, tarde ensolarada em São Paulo. O relógio fincado em frente ao
Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, marcava pouco mais de quatro da tarde.
Uma hora antes uma equipe médica anunciava perto dali, no Hospital das Clínicas,
a morte encefálica do músico Marcelo Fromer, guitarrista do Titãs, atropelado
dois dias antes por uma motocicleta na Avenida Europa. A notícia chegou ao
principal corredor financeiro do país talvez na mesma velocidade com que
circulava o motoqueiro quando derrubou o titã. Um grupo de motoboys
estacionados ao lado do Conjunto Nacional, no começo da Rua Padre João Manuel,
comentava a notícia com uma certeza: apesar de a única testemunha do acidente
não saber dizer se o piloto da moto que matou Fromer era ou não um motoboy,
daqui para a frente a categoria será ainda mais estigmatizada pela população
do que já é.
Eles
próprios reconhecem: a grande parte dos motoboys dirige mesmo perigosamente
suas motos. Ferir, matar ou morrer faz parte da rotina - e as estatísticas
oficiais apontam o assombroso número de 247 motoqueiros mortos em acidentes de
trânsito só no ano passado na cidade de São Paulo.
Fã
-
A notícia da morte de Marcelo Fromer entristeceu muitos dos que fazem ponto no
Conjunto Nacional. Cláudio Genilson de Souza é fã dos Titãs e tem o perfil típico
do motoboy paulistano. Aos 25 anos, Cláudio mora em um afastado bairro da
periferia, cursa o supletivo do primeiro grau, é casado, sustenta a esposa e um
bebê de nove meses. Faz bicos à noite, ganha R$ 700 por mês e diariamente
percorre 100 quilômetros numa detonada Honda CG 125 cilindradas, repleta de
adesivos.
Há
sete anos ziguezagueando sobre duas rodas, Cláudio é um dos 170 mil motoboys
(de um universo de 378,5 mil motoqueiros) que rodam pela capital paulista, com
idade média entre 18 e 25 anos. Está enquadrado dentro da parcela
''privilegiada'' da categoria: Cláudio é contratado (tem vínculo empregatício)
de uma empresa de turismo. O outro contingente da categoria é composto pelos -
expressão que eles próprios cunharam - ''esporádicos'', grupo que ganha por
hora trabalhada, prestam serviço para uma ou várias empresas e literalmente
correm contra o tempo.
Ao
contrário dos ''autônomos'' ou ''esporádicos'', Cláudio trabalha no mercado
de moto-frete sem precisar contabilizar suas horas. Tem um salário fixo de R$
240 e por isso, diz, não ''anda como um louco'' para ganhar uns trocados a
mais. As empresas, entretanto, pressionam para que as entregas sejam rápidas.
Tempo é dinheiro.
Fernando,
22 anos, ganha bem mais como motoboy esporádico: seu rendimento mensal chega a
R$ 800. Em compensação, vive uma roleta russa diária. Ele confessa: ''Corro
como um louco''. Fernando tem namorada, um filho de dois anos e, como tantos
outros, não estuda. ''Eu podia estudar ou ganhar dinheiro. Optei pela grana''
Termo
surgiu em São Paulo
O
termo motoboy retrata uma ''categoria mal vista pela sociedade'', na avaliação
do pesquisador do Fundacentro (departamento lidado ao Ministério do Trabalho),
Eugênio Pacceli Diniz, professor de Engenharia de Segurança e Medicina do
Trabalho na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A
palavra motoboy, segundo Pacceli, surgiu na cidade de São Paulo, para designar
os entregadores que se utilizam de motocicleta. Passou a ser falada em todo o país,
mas com uma conotação pejorativa, depois que o noticiário das TVs exibiu o
motoboy Francisco de Assis Pereira como o autor dos assassinatos de nove
mulheres ocorridos em 1998 no Parque do Estado, na capital paulista.
Entre
os motociclistas, o termo é repudiado. ''Não somos motoboys, e sim
motociclistas'', reclama o presidente sindicato da categoria no Rio de Janeiro,
Anderson Mendonça. O professor Pacceli teme que o atropelamento de Marcelo
Fromer aumente a rejeição. ''A imagem da categoria já está extremamente
estigmatizada'', diz.
Em
seu estudo sobre os motoboys, Pacceli constatou que a organização de trabalho
dos motoqueiros é a grande responsável pelas imprudências cometidas no trânsito.
''Não se toleram atrasos. A jornada de trabalho é exagerada. Esses
profissionais são submetidos a pressão intensa. Mendonça endossa o discurso:
''A empresa fica em cima do motociclista que responde com o excesso de
velocidade. Resultado: acaba ficando na pista'', diz, usando a gíria que
significa acidente fatal. De acordo com Mendonça, todos os dias três motoboys
se acidentam no Rio.
Segundo
um levantamento feito pelo professor Pacceli em Belo Horizonte, o salário de um
motoboy da capital mineira varia de R$ 500 a R$ 700. Para receber esse salário,
os motoboys são obrigados a trabalhar de 13 a 14 horas por dia - de segunda a
segunda.
Tráfico usa motos para levar drogas
Parte
da frota de motoboys está sendo usada no Rio para transporte de drogas. A
Secretaria de Segurança Pública possui informações de que um número grande
motoqueiros está servindo ao tráfico. Para atender a clientela, os
fornecedores se utilizam de serviços 0800 ou de telefones públicos para
entregar maconha ou cocaína a domicílio.
''Temos
informações de grupos que utilizam motos para práticas criminosas. Por isso,
há ordem de parar esses veículos em blitzen. Principalmente motos com dois
ocupantes'', disse o coronel Wilton Ribeiro, comandante da Polícia Militar. As
atenções da PM não se restringem ao transporte de drogas. O veículo é o
preferido de assassinos profissionais. ''Facilita a fuga'', resume o delegado
Carlos Henrique, da Delegacia de Homicídios.
Há
quem leve a cocaína junto com pizzas para não atrair a atenção da polícia
caso seja parado em alguma blitz. Há um mês, policiais da 14ª DP (Leblon)
prenderam o motoboy Raimundo Ribeiro Cardoso, de 24 anos, e Mário Gomes de
Paula, 30, que faziam ponto na Via Ápia, no interior da Favela da Rocinha. Eles
recebiam chamadas por um telefone público para entregar a droga em apartamentos
de Ipanema e do Leblon. Um papelote que custava R$ 10 na Rocinha saía por R$ 40
no sistema delivery. (Marco Antônio Martins)