Perspectiva 2003! O ano que não começou
Reportagem:
Alberto
Villas
Dois mil e três, o
ano que vem aí, certamente vai começar com uma reportagem mostrando quem é o
primeiro bebê do ano. Ele vai nascer saudável, os pais vão estar emocionados e
felizes. Certamente vai receber o nome de Tiago, Lucas ou Mateus. Jamais Mano
Vladimir! O mais curioso é que em cada canal é um bebê.
No mesmo dia
vamos ver o queniano que venceu a São Silvestre colhendo os louros. Ou melhor, a
loira. Ele vai aparecer no Parque Ibirapuera de mãos dadas com a namorada
brasileira que conquistou logo depois de ganhar a corrida. Seguramente ele vai
arranhar uma ou duas palavras em português.
Na volta às
aulas, veremos uma reportagem mostrando os males que uma mochila pesada faz para
coluna dos estudantes. Um especialista vai aconselhar uma mochila de rodinhas.
É carnaval! A
confusão na hora da apuração é coisa certa. Um diretor de escola, à beira de um
ataque de nervos, e se sentindo injustiçado, vai sair dando socos e pontapés e
ameaçando impugnar o resultado.
Já que é
carnaval, coloco a mão no fogo se não for feita uma matéria sobre o Bacalhau do
Batata, aquele bloco que sai na quarta-feira de cinzas como se ainda fosse
carnaval.
Verão! Será que
vamos ter uma reportagem mostrando que ir à praia depois das 11 da manhã é
prejudicial à pele? Claro, né?
Já que está
fazendo tanto calor, que tal um VT mostrando que aumentaram as vendas de
ventiladores?
No dia do
aniversário de São Paulo não vai faltar aquele bolo de um quilômetro de
comprimento sendo devorado em 30 segundos. A imagem final é sempre a de alguém
correndo com um pedaço enorme do bolo em cima da cabeça.
Paixão de
Cristo em Nova Jerusalém! Vem aí em 2003 aquela reportagem que sempre começa com
as pessoas dizendo que vieram de longe, muito longe, só pra ver o espetáculo.
Porto Alegre! Manaus! Curitiba! Juiz de Fora!
Chega a Páscoa
e não vamos escapar daquela reportagem mostrando que a novidade desse ano é o
ovo artesanal, feito em casa. A receita leva nada mais nada menos que uns 50
ingredientes. E tem gente que faz. Isso sem contar aquele VT mostrando que quem
deixou para comprar ovo na última hora, vai levar ovo quebrado pra casa.
Na Páscoa
Judaica, um repórter vai mostrar uma mesa cheia daqueles doces e explicar o
significado de cada um.
No primeiro feriado do ano, uma repórter vai aparecer na avenida Paulista e
mostrar que, de tão vazia, dá para atravessar de olhos fechados. Ela vai e
atravessa.
Do outro lado
da cidade, uma outra repórter à beira da estrada vai informar que 2.367 carros
estão passando ali por minuto e que o litoral está transbordando de gente. Da
rodoviária, uma terceira repórter vai dizer que já não existem mais passagens
para o Sul de Minas, Rio e litoral paulista.
Não sei bem
quando é. Mas quando chegar o dia daquela procissão do fogaréu, ela vai estar
lá, firme e forte. Imagens lindas de encapuzados carregando tochas pelas ruas da
cidade.
No primeiro
feriado patriótico, alguém vai ter a idéia de fazer uma reportagem mostrando que
o brasileiro não sabe cantar o Hino Nacional. De novo, um gaiato vai aparecer no
vídeo tropeçando na letra do nosso Hino.
Finados. Não
vamos escapar daquele sósia de Raul Seixas vestido de preto, óculos escuros,
violão em punho, cantando Maluco Beleza no túmulo do roqueiro, não é? Não vamos
escapar também da informação que os túmulos mais visitados do dia foram o do
cantor Paulo Sérgio e o da cantora Clara Nunes.
Na primeira
sexta-feira 13 de 2003 vamos ver uma matéria em que não pode faltar um gato
preto miando e a imagem de alguém se desviando de uma escada.
Quando dezembro
chegar, aquele queniano lá do início vai vir junto. Para participar e ganhar a
São Silvestre.
Algumas
reportagens não têm dia nem hora para entrar. Mas no correr do ano, certamente
vamos ver uns velhinhos fazendo hidroginástica, o espetáculo da piracema, a
imagem da última ararinha azul, uma galinha que chocou um ovo de pata ou uma
cadela que está amamentando um porquinho. Isso, se a vaca não for pro brejo.
Sendo assim,
Feliz Ano Velho!